Na madrugada quente, apenas o frio artificial era capaz de resgatar parte daquela sensação de episódios tão distantes. Três noites seguidas e um pesadelo em comum: o despertar de um sonho. Sentada no escuro, tentava recuperar cada uma das imagens antes que se dissipassem, como frágil vapor. Seu rosto não havia mudado nada, as mesmas feições, expressões, os mesmos sentidos que sentia ter uma vez conhecido. Longe no tempo e no espaço, e ainda assim parecia tão perto. Longe de todos, onde não precisavam fingir, se esconder, onde o toque era tão real que sentia ser mais que um sonho, era realmente um encontro. Nunca havia acreditado nessas coisas, mas também nunca havia acreditado que algo pudesse ser tão forte e tão nítido, tão intenso, causar calafrios, mesmo depois de tantos anos. Estavam realmente ali, embora as palavras mal saíssem, e apenas os olhos, cansados do tempo e do desgosto, fossem capazes de falar. Podiam lhe contar como sua ausência era letal, e como a vida agora não passava de uma busca incansável, interminável, por aprender a conviver com aquela dor, com o sentimento de pequenez em um universo que agora parecia ainda maior sem a única força com a qual conseguia dividir toda esta loucura. E que embora cada sorriso fosse apenas uma fuga, sentia-se serena, pois sabia que, mesmo que levassem muitas vidas, em algum universo iriam se encontrar novamente. E que talvez aquele pesadelo, em algum momento, fizesse sentido.
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