Aquela noite foi tão longa que demorou
uma eternidade a se passar. O calafrio que sentia não vinha do vento
gelado, e o desespero que lhe dominara não era mais derivado da incerteza. Mais
sóbria do que jamais estivera, conseguia agora enxergar a verdade que fez seu
corpo todo estremecer em profunda desolação. Voltara a ser metade, e seria para
sempre. Sabia que a luz, pálida e ofuscada pelas nuvens, da lua cheia que
iluminava a noite, era a mesma que iluminava os olhos dele, e sabia que jamais
teria chance de ver aquela luz novamente. E aquele pensamento lhe assustava,
lhe tirava todo ar, e lhe fazia sentir como se uma lâmina, afiada e fria,
rasgasse seu peito de fora a fora, tirando seu último fio de sentido. A vida
pela metade se tornara um fardo, e sentiu como se jamais fosse conseguir sorrir
novamente. E as primeiras gotas caíram do céu, já que o frio em seu peito era congelante demais para permitir que caíssem de seus olhos.
E o som das águas era a trilha sonora do filme que agora se passava em sua
mente, tão longo e rico em detalhes que confundia sonho com realidade. Os
sentidos, que aos poucos voltavam, lhe faziam perceber que apenas estivera
presente, em seu subconsciente, naquele momento que a realidade só lhe deixara
viver em pensamento. E quando o céu encontrou a primeira luz da manhã, as
flores pareciam ter se esquecido de desabrochar.
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